quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Nem tudo é motivação

 Escrito por Pe. Robson de Oliveira

É necessário crer em um futuro melhor? Afirmo que sim. É importante motivar-se para uma carreira de sucesso? Lógico! Quanto maior for a capacidade de motivação, melhor serão os resultados. É indispensável ver a vida de forma otimista e positiva? Óbvio, pois o modo como interpretamos a realidade influencia, diretamente, na maneira como encaramos as dificuldades ou superamos situações complicadas.

Encontrar-se motivado, no dia-a-dia, é uma qualidade que faz a diferença no trabalho, em casa, nos estudos e até mesmo na convivência com pessoas difíceis. Estar motivado nos leva a superar adversidades com o sentimento de missão cumprida. Quando há motivação, sonhos tornam-se realidade e nunca nos damos por satisfeitos, uma vez que sempre há algo a realizar, pelo nosso bem e pelo bem daqueles que amamos. A motivação pode, assim, ser definida como a característica que nos leva a ‘ir além’ do esperado.
 
 A pessoa motivada vê o problema, mas com ele também enxerga a solução. Está aí uma grande conquista! O equívoco só aparece quando acreditamos que a motivação é a força para todos os sucessos e fracassos da existência. Pensar em dinheiro, não nos fará ricos. Pensar com otimismo, não nos livrará das dificuldades. Pensar positivamente não fará da mente um ímã poderoso, capaz de atrair fama, sucesso e poder. Se fosse assim, bastava imaginar algo para que se tornasse realidade.

 Alguns acabam se esquecendo de que unido ao pensamento está: a força de vontade, o entusiasmo e a determinação, mesmo sem resultados imediatos. O mais respeitável consigo é aquele que, ao longo do caminho, reconhece que haverá quedas. Sempre corremos o risco de tropeçar e de nos machucar. Ainda mais pelo fato de que a vida não é só um mar de rosas. Também existem os espinhos. O ‘segredo’ está no modo como se levanta após cada queda. Quem cai conhece as adversidades do buraco, as pedras do caminho e as noites escuras da alma. Após a queda é possível se levantar com maior coragem e com a força renovada para continuar na luta, sempre avante.

 Sabe-se que, na atualidade, há um grande número de autores que vendem a motivação como uma mercadoria rentável. As editoras, enfocadas na literatura de autoajuda, têm feito doutores em pensamento positivo. Já há casos de obras que venderam mais de 19 milhões de cópias, entre outras com seus 9,2 milhões de exemplares comercializados. Livros aos montes, traduzidos para os mais importantes idiomas. Isso sem mencionar os autores estrangeiros que oferecem palestras motivacionais ao valor de 10 mil dólares. Eis uma indústria cultural se alicerçando em torno do templo da motivação.

 Admiro quem escreve para ajudar as pessoas e faz da escrita uma profissão. Porém fazer da dificuldade alheia uma cifra para acumular riqueza não é algo tão elogiável. E se não houvesse problemas e dificuldades? Como é ficariam os ‘experts’ da motivação? Perderiam eles a razão de ser e de existir? Se o objetivo é que todos encontrem o sucesso, chegará um momento em que não haverá necessidade de livros, pois os leitores já o terão alcançado. E aqui aparece o dilema: ou os autores estão dando tiro no pé ou os seus ensinamentos só serão testados quando as pessoas pararem de comprar. Seguindo essa ordem, chegará um tempo em que a lei do pensamento positivo estará consolidada, não havendo necessidade de novos ensinamentos. Portanto, aguardemos.
 
http://www.mensagenscomamor.com/images/jpgs/img/a/agradecer_a_deus_1.jpg Frases como: “O poder está na sua consciência”, “O seu destino é o sucesso”, “A motivação é o segredo para a felicidade sem limites”, “Mentalize seus desejos e eles acontecerão” e “O futuro está nas suas mãos” refletem uma ideia de que a realidade depende mais do pensamento que das atitudes. Um duvidoso resultado, por sinal. Faz bem ter motivação, mas é de suma importância agir com força, ânimo e disciplina; respeitando limites e superando defeitos. Veja os grandes empresários de sucesso: alguns tiveram que perder dinheiro no início. Outros beiraram a falência e deram a volta por cima. Outros ainda sofreram com a desonestidade de pessoas próximas, perderam bens e se esforçam para que as crises econômicas não afundem seus negócios. Estranho constatar que os doutores do pensamento positivo não falam do fracasso. Qualquer teoria deve ser inserida em uma margem de erro, inclusive para ser legitimada.

 Não é correto defender o sofrimento pelo sofrimento. Contudo, apresentar somente o sucesso sem mencionar as dificuldades é infantilizar as pessoas, pois a realidade é bem diferente do que alguns livros de automotivação propõem. O que acontece com aquele que pensa em dinheiro e não o tem ou com aquela que deseja perder peso e não o perde? Estariam ambos com um déficit no que desejam ou estariam atraindo desejos contrários às suas motivações? O segredo, para o primeiro, talvez seja organizar melhor as finanças, cortar gastos supérfluos, viver do necessário e investir naquilo que rende. Já para a segunda a solução estaria no acompanhamento com um bom nutricionista ou endócrino, fazendo uma reeducação alimentar satisfatória, deixando de comer por ansiedade ou por decepção.
 
 Os dois casos, acima ilustrados e tantos outros, são importantíssimos à motivação. Mas deve-se ter a consciência de que a motivação não é uma ‘força do pensamento’ que tudo faz e realiza. Pelo contrário, a motivação é uma força para a ação. Ela é o que move atitudes coerentes, justas e éticas. Ela não pensa, ela age. É fundamental confiar em si mesmo, mas também fica o lembrete: Nem só de “motivação” vive o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus (Cf. Mt 4,4).

Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Missionário Redentorista, Reitor da Basílica de Trindade e Mestre em Teologia Moral pela Universidade do Vaticano.

Um comentário:

  1. Aprecio muito as homilias do Pe. Robson! E esse texto acima comprova o que eu escrevo sobre ele! Excelente!
    Abraço.

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