domingo, 3 de abril de 2016

Bairro Praia de Iracema

Bairro que nasce na beira da praia, quase sempre, tem vocação para “sobreviver” do mar. Com a Praia de Iracema não foi diferente. Isso fica explícito pelo nome como o bairro era conhecido anteriormente: Praia do Peixe. Na recordação da aposentada Nadja Albuquerque, 67, está a imagem de um lugar habitado, principalmente, por pescadores. “Antes, tinham muitas jangadas. Hoje, não tem mais nada”, comenta.

O início do bairro foi bem simples. A aposentada Lourdes Nepomuceno, 77, relembra que “era tudo casinha de taipa”. A rua onde mora, atualmente chamada de Tomás Lopes, “era só o areal”.

Há 62 anos, ela deixou a família em Mombaça e veio para Fortaleza com uma parente distante. Fugia de uma decepção amorosa. Na Praia de Iracema, encontrou um novo amor, com quem foi casada por 39 anos. Também foi onde deu à luz e criou os seis filhos.

                           


Segundo o turismólogo Gerson Linhares, a mudança do nome para Praia de Iracema ocorre na década de 1930, após um concurso realizado em Fortaleza. A escolha teria uma forte relação com a obra Iracema, do escritor cearense José de Alencar. Inclusive, a maioria das ruas do bairro homenageia tribos indígenas, como os Tabajaras, Cariris e Potiguaras.

No início do século XX, o bairro começou a ser utilizado para a construção de casas de veraneio pelos fortalezenses. De acordo com Gérson, esse perfil foi alterado pela chegada da família pernambucana Magalhães Porto, pois ela decidiu construir a residência familiar no bairro. Hoje, o prédio abriga o famoso Estoril. “Houve uma quebra de paradigma, pois foram morar ao lado da praia e começaram a ser benfeitores do lugar”, explica Linhares.

Com a chegada da década de 1940, a Praia de Iracema passa a ser frequentada pela boemia fortalezense e esta se torna a “impressão digital” do lugar. Tudo começou pelo atual Estoril, que era utilizado como cassino pelas tropas americanas sediadas em Fortaleza durante a Segunda Guerra Mundial.

Cantada por Luiz Assunção como “a praia dos amores que o mar carregou”, a Praia de Iracema sofreu com o avanço do mar, após a construção do porto do Mucuripe na década de 1950. “Eles falam sobre o mar, mas também da mudança de costumes. Os intelectuais e músicos começaram a perceber as mudanças que aconteciam nos bairros”, pontua Gerson.

A Praia de Iracema é, junto com a Jacarecanga, considerada um “Bem de Relevante Interesse Cultural” para Fortaleza. Segundo o coordenador de Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), Alênio Carlos Noronha Alencar, isso se deve à existência de “uma memória coletiva muito forte” em relação ao bairro. “Temos as edificações históricas e também as vivências que perpassaram a cidade. Era o local onde, muitas vezes, reuniam-se os intelectuais, jornalistas, músicos e profissionais liberais”, afirma.

Na avaliação do turismólogo Gerson Linhares, o modelo de turismo adotado no local fez com que se perdesse o foco na preservação patrimonial e cultural do lugar. “A Praia de Iracema foi vítima de um turismo mal planejado. Isso fez com que as casas antigas fossem sendo transformadas em bares, por exemplo”, critica o turismólogo.

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