quinta-feira, 31 de março de 2016

Bairro Antônio Bezerra

O prédio é antigo. Bicentenário. Construído em 1802, tem paredes grossas, que resistem bravamente ao tempo. O telhado é feito com caibros e ripas de carnaúba. Seis cômodos estão distribuídos em 400 metros quadrados. Um espaçoso alpendre cerca toda a edificação. A única alteração foi em parte do piso, que recebeu novo azulejo. Dezenas de árvores de muitas as espécies cercam a casa.
A descrição acima é da Chácara Salubre, uma das mais antigas lembranças do Barro Vermelho (como era chamado o bairro Antônio Bezerra). Defronte à movimentada BR-020 ou avenida Mister Hull, o tempo lá passa de maneira diferente, mais lento, e o frescor da brisa na varanda nem de longe lembra a calorenta Fortaleza.

A chácara que lembra os tempos do Barro Vermelho

Proprietária do imóvel, a professora aposentada Juraci da Silva Gomes, 92 anos, é uma das mais antigas do bairro. Lecionou por mais de 30 anos na escola Joaquim Nogueira. Conhecida e respeitada por formar gerações de alunos, confidencia que até já enterrou alguns deles. “Muitos já se foram e eu fiquei”, diz.

Sentada na cadeira de rodas, vestida com uma camisola azul e cheia de pequenos corações brancos, dona Juraci vai desfiando histórias sobre o bairro onde nasceu e morou a vida toda. “Nasci aqui em 15 de dezembro de 1920”, informa. Apesar do AVC aos 86 anos, que chegou a paralisar parte do corpo, a memória e a lucidez mantêm-se impressionantes.

A chácara foi adquirida pela mãe dela, Alexandrina de Sousa e Silva, em 1917. Naquela época, passava em frente ao imóvel uma estreita e poeirenta estradinha de terra, que ligava Fortaleza ao Soure (hoje Caucaia). Daí o nome Barro Vermelho. O ônibus, só duas vezes ao dia. Para pegar o bonde, era preciso caminhar até onde, hoje, é o início da avenida Bezerra de Menezes.

Próximo, só existiam três outras residências. O resto era só vegetação nativa. Onde tinha até onça! O motorista José Levi, 66, lembra que, ao longo da via, depois, foram surgindo algumas bodeguinhas.

“A chácara tinha um cacimbão que abastecia todo mundo”, comenta a professora Francisca Pereira, 61. O poço ainda existe e dona Juraci garante que ele nunca secou. O local, inclusive, era paragem dos antigos retirantes da seca.

O terreno da chácara era bem maior do que o de hoje. Aos poucos, foi sendo vendido para a construção de moradias. E a proprietária já recebeu boas ofertas para se desfazer dele de uma vez por todas. Mas foram recusadas. “Aqui eu me criei e criei meus filhos”, diz a aposentada, para quem os laços afetivos não podem ter um valor financeiro.

Hoje, a casa é ponto de encontro da família, que se reúne aos domingos “para tomar uma cervejinha”. “Sou farrista. Gostava muito de dançar”, relembra dona Juraci, enfatizando que gosta de conversar mesmo é com gente mais jovem.

Na década de 1960, o bairro mudou de nome, passando a se chamar Antônio Bezerra. Não mudou só a denominação, mas também o perfil. De chácaras e sítios ao predomínio de casas e pontos comerciais. “Foi mudando devagarinho”, explica.

Já a antiga estrada de terra deu lugar a uma das avenidas mais movimentadas de Fortaleza, a Mister Hull. Porém, a chácara Salubre permanece lá, firme, teimando em manter viva a história do bairro. 

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