domingo, 26 de julho de 2015

Por uma existência mais espiritual



Na atualidade precisamos recorrer não somente aos tratados espirituais, mas, sobretudo, aos gran­des mestres da espiritualidade para sermos pessoas mais contemplativas e, ao mesmo tempo, mais humanas. Na vida dos místi­cos está o itinerário fundamental para a li­bertação interior do indivíduo: o encontro com Jesus de Nazaré! Nele e por Ele somos capazes de adentrar o mistério de Deus!

Infelizmente ainda é intensa a quantidade de pessoas que se distanciam da experiência da fé. Esperam chegar à terceira idade para assumirem uma vida de conversão em Deus. Muitos são aqueles que pensam a espiritualidade como um meio de tolir a nossa liberda­de. Espiritualidade seria sinônimo de caroli­ce, fechamento, isolamento das pessoas e das coisas boas da vida, resignação e sofrimento.

Viver espiritualmente não é uma perda, mas um ganho da pessoa humana. Ganhamos em qualidade de vida ao nos tornamos pesso­as redimidas pela experiência de Deus. Nossa vida ganha sentido, nosso coração lucra um norte e nossa história se investe em esperan­ça! Parece até uma linguagem capitalista, todavia é só uma forma de linguagem para expressar que Deus não nos tira nada, pois é pura gratuidade. A única coisa que perdemos é aquilo que nos afasta de seu amor de Pai e de sua ternura de Mãe.

O objetivo maior da vida espiritual é comunicar às pessoas o cenário do Transcen­dente e a hierofania do Sagrado no tempo. É um caminho de silêncio e de busca incessante pela face do Divino que se apresenta na solidão acompanhada pelo humano. Aqui a oração se apresenta como essencial para a vi­vência do Reino de Deus. A oração é o hálito da alma e a experiência fundamental para o reconhecimento da necessidade que temos de Deus. Por meio da oração, a espiritualidade é gestada no interior da pessoa humana.

Vivenciada interiormente a espiritualida­de torna-se manifestação de Deus no mun­do. Logo depois vem a leitura bíblica, como devoção e não como debate teológico. Em seguida está a entrega contínua à vontade de Deus e por fim, seguem as demais realidades: na autodisciplina, na orientação pelo Espírito Santo, na virtude do amor e no julgamento prático. Na experiência mística a oração se volta para a conversão do “eu interior”: é o momento do “estar a sós” para que o Divino se torne humano e o humano de torne Divino, em um movimento contínuo da encarnação de um no outro, sem simbiose, mas na reci­procidade existencial dos dois seres ontoló­gicos.



Por meio da espiritualidade histórica a mística torna-se a proclamação da liberdade e da fidelidade em Jesus de Nazaré. Assim continuamos a missão redentora de Jesus na peregrinação interior pelas trilhas do mundo. Aprendemos a olhar o mundo e o tempo na ótica de Deus. Diante das dificuldades na pe­regrinação interior no mundo, Deus se apre­senta como o único recurso seguro e eterno. Posteriormente a espiritualidade nos convoca a uma vida piedosa em Deus e a luta paulati­na contra a intolerância à justiça e a favor da fraternidade entre os povos.

Por outro lado, a espiritualidade também insiste que a mensagem bíblica não deve fi­car somente nos redutos, mas deve ser antes impregnada ao coração, para ser vivenciada e testemunhada no mundo. Assim nos torna­mos “andarilhos de Cristo” na sociedade.

Na essência da espiritualidade está a de­dicação de oferecer-se a Deus sempre e em todo lugar. Viver uma vida de oblação na escola da caridade! Tornamos-nos pessoas atentas às necessidades do mundo. Somos capazes de reconhecer no rosto dos pobres o rosto de Cristo, que ainda peregrina no sofri­mento humano. Nossos tímpanos são rompi­dos pelos gritos de dor e desespero que ema­nam no coração do mundo. A espiritualidade nos ensina o limite da vida e constrói em nós um coração próximo ao de Deus! Por isso, que ao falar de espiritualidade é impossível dissociá-la da conversão da pessoa humana. As raízes do nosso ser são transformadas por meio da experiência em Deus.

Por fim, a espiritualidade não se reduz às técnicas de oração nem somente a cami­nhos para a meditação. Pelo contrário, ela está presente na gênese da experiência da fé. A espiritualidade também não é só conceito, mas, principalmente vivência eficaz e assaz, com conceitos vivos e sem ambiguidades, do mistério de Deus. A espiritualidade é precisa, simples e extremamente esclarecedora. Resu­me-se em um modo de ser e viver, no mundo, sob a ótica de Deus. Que estejamos abertos para permitir que Deus possa “ser e viver” em nós!



Pe. Robson de Oliveira, C.Ss.R.
Reitor da Basílica de Trindade

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