quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Dia bonito para chover!

No Ceará é assim...



Cearense nunca entendeu muito bem o fato dos outros brasileiros tratarem o dia ensolarado como "tempo bom". Para muitos,o dia ensolarado é mais vantajoso, para o nordestino, de modo geral, que costuma ter sol o ano inteiro, tempo bom mesmo é a estação das chuvas. Ruim é a seca e todas as consequências para a região.

Na Terra da Luz, o sol diário é inclemente, mas inspira poetas e queima sem piedade as sensações de um povo. Iracema, personagem de José de Alencar, descansa na floresta em busca de refúgio de um sol a pino. Adriano Espínola, em seu livro Beira-Sol, enxerga a beira-mar pela luminosidade do astro rei. Rachel de Queiroz descreve o sofrimento do retirante em meio à famigerada seca de 1915. Contudo, a maior poeticidade elaborada pelo cearense nasceu da boca do povo, do dia-a-dia, da observação atenta ao céu e às suas transformações. Nas terras, alencarianas, quando o céu fica carregado de nuvens pesadas, escuras o tempo está "bonito para chover".

E o olhar atento ao céu também gera momentos de descontração, como o ocorrido em 30 de janeiro de 1942, quando o sol foi vaiado em plena praça do Ferreira. No período, o Ceará enfrentava uma seca severa e, para felicidade de muitos, naquele momento, a chuva já durava três dias. O sol, timidamente, quis aparecer em meio às carregadas nuvens. A população não quis acreditar na possibilidade de surgimento do sol e largou uma vaia estrondosa aos céus. Ainda assim, o sol venceu as pesadas nuvens e mostrou seu poder.

A poética expressão vem do desejo pela chuva. Uma chuva rara que é reclamada pelo sertanejo a todos os santos em diversas ladainhas. O maior deles é São José: quando não chove em 19 de março, o cearense fica sem esperança de águas. Os profetas da chuva são pessoas que desenvolveram esse olhar atento ao céu e a outros sinais da natureza escritos no tempo. E a sensibilidade nordestina consegue interpretá-los com a preocupação de quem precisa sobreviver.

Assim, em terras de cá, não há "tempo ruim", há o "tempo bom" ensolarado em que o astro maior brilha e apresenta os encantamentos da Cidade da Luz. E há o tempo melhor, o dia "bonito para chover", momento em que os olhos se enchem de alegria, a esperança se renova, os meninos molham-se nas ruas e o sertão vira mar de satisfação e encantamento.

Revista PENSE.

2 comentários:

  1. Bendita seja a chuva diante de tanto calor que estamos enfrentando...
    Abraço.

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    1. Bendita seja a chuva, a natureza e o amor, porque tudo foi o Pai Celestial que nos deu. Beijos das meninas! Até logo.

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