quinta-feira, 2 de maio de 2013

Outros olhares

 

    Nem sempre o que se vê é o que se parece. Aquela menina sentada no banco da igreja apenas olha e observa. Ela observa tudo o que acontece ao redor de forma descontraída. Quem a vê não imagina o que ela percebe.

   Ela olha atentamente para um casal. Aquele casal aparentemente é unido. Como se tratam bem! Mas no fundo ela sabe que se detestam e que só estão juntos por interesse. Interesse de quê? Interesse físico, pois ambos são bonitos. Interesse profissional, pois ambos possuem diploma. Mas no fundo não é verdadeiro. A mulher até se esforça um pouco, mas não consegue mais do que isso. Ela costuma passar 4 ou 5 dias sem ligar. Ela finge tão bem, tão completamente, que finge ter o amor que deveras não sente. O homem que se diz apaixonado envia flores e bombons, mas não a ama. Ele gosta de verdade da Mariazinha da padaria que entrega leite e que faz o pão de coco do jeito que ele gosta. E ela até já demonstrou que é recíproco, mas para ele há mais desinteresses que interesses. A mulher gostava era do vizinho, que dizia coisas bonitas a ela e que a fazia esquecer do mundo. “Veja como o dia está bonito!” “Mas que noite agradável!” “Como o tapete da entrada de seu apartamento é bonito!” Era o que ele dizia.

   Ela também olha para a velhinha que se faz de boazinha dando comida aos gatinhos. “Como é amável com os animais!”, dizem os passantes. “Tão triste sua viuvez, tão solitária. Uma pena que seu marido morreu, morreu de velhice!” Mas ninguém jamais imaginou que desde jovem ela frequentava reuniões de magia negra do Templo de Ubanda Orixá Ogun. Desejava ardentemente a morte do marido, já que foi por causa dele, do casamento arranjado pela mãe, que apesar da época não admitir tal coisa, arranjou. Essa velhinha tinha o sonho de ser babá de crianças no exterior. Ganharia bem e no contrato poderia viajar por vários lugares dos Estados Unidos. Mas o contrato só aceitava moças que fossem solteiras, para não haver motivos para voltar antes do tempo combinado. Por isso queria se vingar. A maior vingança foi ter evitado a todo custo não ter filhos, fazendo estudo do ciclo menstrual ou abortando com métodos caseiros, para não poder dar o prazer de ele ser pais assim como a ela não foi dado o prazer de ser babá no exterior. 

   Ela ainda ali vê a barraquinha de pastéis da dona Irene. Uma mulher que não casou. “Como é triste não casar! Não ter família é muito solitário!” É o que dizem os passantes. “O maior sonho da maioria das mulheres é casar e ter filhos.” Quem diria, ela já teve sim, família. Mas os dois filhos, o marido, o gato e a cadela foram esquecidos no momento em que ela cruzou as fronteiras da cidade de Juazeiro, na Bahia. Queria novos ares. Fugiu com um traficante de maconha que a prometeu mundos e fundos, como dizem, mas na verdade só queria alguém disposto a correr um risco. O risco de engolir 200 gramas de maconha e de levar ao local que refinaria e misturaria a droga a outros ingredientes. Ora, o leitor está chocado? Claro, a droga lucraria mais assim.

   E a menina vê, e sabe que tudo isso que passou em sua cabeça não passava de imaginação. “Ora, mas quem sabe, poderia até ter acontecido!” Tudo vale quando se imagina a vida dos outros. Porque um mundo sem as lentes da imaginação não tem tanta graça assim. E ela levantou do banco da igreja e foi para casa estudar. Seria uma escritora, talvez. O mundo seria bem mais estranho e divertido com sua ótica de ver as coisas.

 Por: Érika Oliveira 
Fonte imagem: Gloogle.

4 comentários:

  1. Oiê!

    Não sei como pode viver uma vida de fingimento...

    O pior que mais tem nesse mundo amada...

    Fica com Deus!

    Beijokasssssssssssssssss...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode até ser difícil de acreditar, mas existe , e existe muito!

      Fique com Deus também Hanan!

      Beijos das meninas.

      Excluir
  2. Érika e Bárbara,
    Obrigada pela visita no teredecorando. Estou encantada com tudo por aqui. Muito bacana este blog, viu?
    Tenho outro de moda. Quando puderem vão lá para conferir.
    www.democratizacaodamoda.blogspot.com
    Beijos mil

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Teresinha!
      Que bom que você veio e gostou.
      Iremos com muito gosto conhecer
      o democratizacaodamoda.
      Abraços.

      Excluir

Agradeço pelo seu comentário!