sábado, 14 de janeiro de 2012

Grandes brasileiros e seu legado

As ideias, causas e lições de vida de personagens históricos que ajudaram a construir o Brasil e que ainda inspiram as gerações atuais na tarefa de antecipar o futuro.
Selecionamos doze, dos cinquenta brasileiros da história do Brasil selecionados pela Veja, que defenderam conceitos revolucionários em seu tempo e que permanecem atuais neste começo de século XXI. 
Da lista constam personagens consagrados e nomes de que pouco se ouve falar. São brasileiros que ajudaram o país a avançar na política, na economia, no direito, na educação e na saúde. 
Um exercício interessante foi imaginar se esses personagens históricos ficariam satisfeitos com o modo como suas causas, ideias e convicções são encaradas atualmente no Brasil.
                            
                            
                           Maria Quitéria
(1792 - 1853)
Nascida em São José das Itapororocas, na Bahia, ficou órfã de mãe aos 9 anos e assumiu o comando da casa. Na juventude, montava, caçava, manejava armas de fogo e dançava lundus com os escravos. Em 1822, vestida com a farda do tio, alistou-se nas tropas que lutavam pela causa da independência do Brasil. Adotou o nome do cunhado, soldado Medeiros, e ingressou no Regimento de Artilharia. Mais tarde, foi transferida para o Batalhão dos Periquitos. No combate de Pituba, em fevereiro de 1823, destacou-se por ter feito prisioneiros. Depois da entrada do Exército Libertador em Salvador, foi condecorada no Rio de Janeiro com a insígnia de Cavaleiro da Imperial Ordem do Cruzeiro pelo Imperador, Dom Pedro I. Retornou à fazenda Serra da Agulha, onde foi aclamada como heroína pela família e pela população local. Casou-se com o lavrador Gabriel Perreira de Brito e teve uma única filha, Luísa da Conceição. Morreu em Salvador, onde vivia de seu soldo de alferes, já quase cega.


Como pioneira no desafio ao preconceito de gênero, ficaria impressionada com a participação das mulheres em todas as esferas da vida profissional.


Oswaldo Cruz
(1872 - 1917)
Há pouco mais de 100 anos, nas cidades brasileiras reinavam doenças como a peste bubônica, associada aos ratos, a febre amarela, propagada por vírus transmitido por mosquito, e a varíola, disseminada por contato humano. Coube a Oswaldo Cruz liderar a ação coletiva para reduzir as condições de reprodução de ratos e mosquitos, além de instituir a vacinação obrigatória contra varíola. Essas ações combinavam com a proposta de reurbanização da capital pelo presidente Rodrigues Alves, que desalojou muitos moradores da região central da cidade. A realidade popular em 1904 durou dias e foi, incorretamente, chamada de "Revolta da Vacina", pois tinha como motivação principal a remoção de casas. Nos anos seguintes, com a diminuição drástica no número de casos dessas doenças. Oswaldo Cruz teve seu trabalho reconhecido. Ele foi um dos primeiros a defender a urbanização como forma de redução das endemias no Brasil, conceito hoje lógico, mas que exigiu bastante coragem para ser implantado.


Ele ficaria satisfeito em verificar que políticas como as que defendeu são aplicadas hoje em campanhas como as de combate ao mosquito da dengue. 


Anísio Teixeira

(1900 - 1971)
Anísio Teixeira, nascido na Bahia em 1900, entrou para a história da educação brasileira como um dos autores do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, que pela primeira vez no país, propunha a criação de um amplo sistema de escolas públicas para a educação básica. Ele estudou nos Estados Unidos, de onde trouxe a filosofia pedagógica do pragmatismo, que juntava o conhecimento teórico com a experiência prática, o mundo da cultura e o mundo do trabalho. Era a proposta da Escola Nova, que deveria fundar e revolucionar a educação e a sociedade brasileira. Para o educador, apenas através  do ensino a desigualdade social poderia  ser combatida, e foi com essa ideia que teve início o processo de democratização da educação no país. Anísio Teixeira dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), que hoje leva seu nome, e criou e dirigiu a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).


Ele ficaria desanimado com a baixa qualidade do ensino público atual.


Princesa Isabel
(1846 - 1921)
A princesa Isabel nasceu em 1846, época em que o império começa a se consolidar, após o turbilhão de revoltas separatistas das suas décadas anteriores. No livro Princesa Isabel do Brasil: - Gênero e Poder no Século XIX, Roderick J. Barman revelou o engajamento político da personagem. Entre 1871 e 1880, devido à ausência de Dom Pedro II, em viagens no exterior, a princesa governou o país por três vezes. Ao todo, essas regências somam três anos e meio - quase o equivalente a um mandato presidencial atual. Sob o governo da Princesa Isabel, em 1888, foi abolida a escravidão no Brasil. A medida deu um sopro de popularidade à monarquia, mas não foi suficiente para implantar a proclamação da República, no ano seguinte, A princesa morreu na França, em 1921. Dilma Rousseff, portanto, é a segunda mulher a governar o Brasil.

Ela ficaria contente em ver que, no Brasil de hoje, as mulheres participam da vida pública em situação de igualdade com os homens. 


Francisco de Paula Brito

(1809 - 1861)
Descendente de escravos, Paula Brito conferiu cunho local à impressão e comercialização de livros no país. Recebendo o apoio de Dom Pedro II - sócio benemérito de sua tipografia -, Paula Brito passou para a história como o primeiro editor brasileiro. Defendeu o princípio de uma cultura liberal, aparentemente alheia a injunções de classe. Essa ideia transformou sua livraria num espaço aberto ao livre trânsito da arte e do pensamento. Ali, personalidades da elite imperial relacionavam-se com pessoas de origem humilde. Foi o caso de Machado de Assis. Na primeira juventude, no círculo de Paula Brito, ele conheceu diversos figurões de seu tempo, estabelecendo relações que durariam por toda a vida.

 Paula Brito se sentiria feliz ao perceber que a maioria das barreiras às relações sociais sem preconceito de classe caiu. 


Frei Vicente do Salvador

(1564 - 1639)
Botânico, geógrafo e etnógrafo, é considerado uma verdadeira enciclopédia do Brasil seiscentista. O baiano Vicente Rodrigues Palha estudou no colégio São Salvador, dos pares jesuíta. Aos 35 anos, tomou o hábito franciscano, adotando o nome de Frei Vivente de Salvador. Em 1612, foi eleito custódio da Custódia Franciscana Brasileira. Dez anos antes de falecer, terminou seu História do Brasil, com uma narrativa recheada de bom humor, arejamento e amor ao Brasil. Nessa obra, tratou da "zona tórrida", discutindo a beleza das florestas e a riqueza de sua biodiversidade. Criticou o atraso na terra e responsabilizou os portugueses por não conhecerem o Brasil, preferindo "arranhar as costas como caranguejos", frase que ficou famosa. Introduziu a possibilidade de o Brasil vir a ser centro de refúgio ao governo português - o que de fato ocorreu em 1808.


Como pioneiro na valorização da biodiversidade, ficaria satisfeito em perceber que a preocupação ambiental está presente em todos os grandes debates nacionais. 


Diogo Feijó

(1784 -1843)
Conforme consta na ata do batismo de Diogo Feijó, ele foi "exposto" na casa de um padre, em São Paulo. Ou seja, assim como outras 46 crianças ao longo daquele ano, ele foi abandonado em frente ao um domicílio no centro da capital paulista. Essa origem humilde não impediu a ascensão social e política de Diogo Feijó, conseguida graças ao ensino gratuito em instituições religiosas. Em 1835, após um período de regência trina, motivada pela abdicação de Dom Pedro I e pela menoridade de seu sucessor, Feijó foi eleito regente único. Jorge Caldeira, no Livro Diogo Antônio Feijó, sublinha que, apesar de possuir poderes equivalentes aos do rei, o regente recusou títulos de nobreza e manteve um estilo de vida simples até a morte, em 1843. Feijó se afastou da regência em 1837. Ele permanece um exemplo por não ter utilizado a política como uma forma de enriquecimento, mas sim como um dever cívico.


Ele teria dificuldade de encontrar encontrar hoje, alguém que, como ele, se entregasse á política unicamente como um dever cívico. 


Padre Manuel da Nóbrega
(1517 - 1570)
O padre português Manuel da Nóbrega chegou ao Brasil em 1549 com o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa. Hábil organizador, foi o líder da Companhia de Jesus no Brasil. Em suas missões, percorreu durante anos o litoral entre São Vicente e Salvador, e fundou o colégio de Piratininga, futura cidade de São Paulo. Numa terra sem leis claras e onde presença do estado era miníma, não temeu defender a liberdade dos indígenas. O padre Manuel da Nóbrega sempre enfatizou a necessidade de evangelização dos nativos, pois acreditava que, assim como os europeus, os índios tinham alma, que poderia ser salva pelo catolicismo. Isso permitia igualar conquistadores e conquistados, o que não agradava aos portugueses coloniais, que apoiavam e escravização dos indígenas, e batizou milhares deles. Apesar de os jesuítas não reconhecerem o direito dos nativos de não aceitar os valores cristãos, o padre Manuel da Nóbrega introduziu no país a noção do índio como ser humano, essencial para a posterior inclusão deste como cidadão.

Ele ficaria satisfeito com o fato de sua visão sobre o que define um ser humano ter prevalecido.


Visconde de Cairu
(1756 - 1835)
José da Silva Lisboa, o visconde de Cairu, foi jurista e homem público. Participou da Assembléia Constituinte de 1823 e do Senado, entre 1826 e 1835, defendendo sempre a unidade política do império, a liberdade de comércio e o interesse público. Nos primórdios do estado constitucional brasileiro, não era raro o uso da política para defesa de interesses privados. Em várias ocasiões, Cairu criticou essa prática e, tanto na imprensa como no Parlamento, defendeu a virtude cívica e a ética como qualidades imprescindíveis aos governantes. O compromisso com a ética por parte do homem público permanece vital das sociedades democráticas contemporâneas.

Ele ficaria indignado ao ler o noticiário no Brasil de hoje, com seus exemplos de falta de ética na vida pública.


Carlos Chagas
(1878 - 1934)
Entre os cientistas que deveriam ter recebido o Prêmio Nobel de Medicina, o nome de Carlos Chagas é sempre lembrado. Ele conseguiu a proeza de não apenas descrever o quadro clínico da doença que leva seu nome, como também identificar o agente (o tripanossoma) e o transmissor (o barbeiro). Além de notório cientista, na década de 20, em cargo equivalente ao de ministro da Saúde, editou o primeiro Código Sanitário do Brasil, tornando-se um dos primeiros a demostrar a importância da higienização para a saúde. Criou também programas especializados para maternidade, infância, sífilis, lepra e tuberculose e estendeu os postos de saúde às áreas rurais. Chagas percebeu que a ação médico-hospitalar não poderia se limitar à atuação de voluntários e criou os cursos pioneiros de enfermagem profissional e de higiene e saúde pública. Para completar, sempre entendeu a pesquisa como indissociável da prática médica e sanitária.


   Ele se sentiria honrado em perceber que sua ideia de priorizar a prevenção entre as políticas de saúde pública não perdeu força. 


Vital Brasil

(1865 - 1950)
A educação básica obrigatória já era realidade na Europa e na Argentina no século XIX. No Brasil do início do século XX, poucos defenderam a educação universal como solução para o desenvolvimento e a consolidação de ideais cívicos e republicanos. Acreditava-se que o povo brasileiro teria uma "deformação étnica", impeditivo maior de progresso social. O médico e sanitarista Vital Brasil se formara com dificuldade e acreditava na força transformadora da ciência e da educação. Ele reproduziu no Brasil o tratamento contra a peste bubônica e desenvolveu uma grande quantidade de soros para vítimas de acidentes com cobras, aranhas e escorpiões. Fundou o renomado Instituto Butantan, de São Paulo, onde criou, na década de 10, uma escola para filhos de funcionários e o primeiro curso de alfabetização para adultos do país. Apenas muito tempo depois da iniciativa de Vital Brasil, outras instituições passaram a se preocupar com a educação de seus empregados.


A alfabetização de adultos tornou-se objeto de política pública, mas um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais ainda não sabe ler ou escrever.


Campos Salles
(91841 - 1913)
Nascido em São Paulo, Manuel Ferraz de Campos Salles foi deputado, senador, ministro, governador e presidente da República. Na Comissão de Justiça do Senado, defendeu a restrição do Poder Executivo federal, através do projeto de lei sobre crimes de responsabilidade na Presidência. Para tentar frear os abusos de poder do então presidente Marechal Deodoro da Fonseca. Campos Salles propôs a ideia de que o governante da nação tinha responsabilidade sobre o país e deveria ser punido caso não agisse de acordo com ela. Entre as infrações possíveis estavam  os atentados á Constituição, á forma de governo proposta e ao livre exercício dos poderes Legislativo e Judiciário. Como resposta, Deodoro fechou o Congresso e instalou estado de sítio, retirando o senado do cenário político. Em1896, Campos Salles retornou aos cargos públicos como governador de São Paulo e, em 1898, assumiu a Presidência do país. Em seu mandato, retirou o Brasil de uma greve crise econômica, produto de descontrole dos gastos governamentais. Sua defesa irrestrita de uma legislação a todos, incluindo os governantes, é uma lição democrática atemporal.


Ele ficaria insatisfeito em atestar a impunidade dos abusos de poder atuais. 


Alguns deles tiveram seus retratos e pinturas originais reconstituídos em estúdios fotográficos com modelos de carne e osso  paramentados com roupas e adereços produzidos sob orientação de historiadores dos costumes de cada tempo histórico. (Assista, na edição digital para tablets a um vídeo mostrando detalhes dessa reconstrução histórica). 
Revista VEJA - Dezembro, 2011.

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