sábado, 4 de junho de 2011

Vinhetas

       Inúteis os queixunbres contra a ingratidão. Quem é favorecido sempre procura fugir do benfeitor, para não serem lembradas as mercês recebidas, o emprego, o dinheiro emprestado, a boa orientação da qual resultou bom sucesso na vida do ingrato. Instala-se no beneficiado espécie de complexo de inferioridade. Não quer assumir a posição de devedor, e esta lhe parece a melhor estratégia. As pessoas em geral têm história símile meste campo. Nem Cristo escapou, apesar de sua união hipostática, Deus-homem. Negado três vezes por Pedro; traído por Judas; esquecido, à exceção de um, pelos leprosos curados; episodicamente vulnerado pela incredulidade de Tomé.
      Certa vez consegui bom emprego para um amigo, em cuja nova função passou a ganhar vinte vezes mais. Um dia pedi-lhe levasse uma carta ao Correio. Respondeu-me displicentemente: "Hoje não vou pra aquelas bandas". Outro, para quem obtive cargo efetivo de boa renumeração, deixou de trocar-me cinco mil cruzeiros, sob a alegativa de já haver fechado o "caixa" do órgão no qual servia.
      Ante a ingratidão, cabe lembrar o ensino de autor desconhecido, cujo trecho não decorei. Guardo-lhe porém as ideias centrais. Manda semear em qualquer circunstância, seja o solo áspero ou a chuva frequente, pois não é função do homem julgar a terra nem o tempo. Sementes existem a mancheias, o sorriso, a palavre de estímulo, de conforto, de aconselhamento, a dádiva, a saudação com a desejo da boa sorte, o beijo de afeto ou de amor, o emprego constante.
     Sem pedir recompensa, você a terá na alegria de ter espalhado o bem. Sem pleitar colheita, seus haveres multiplicar-se-ão, porque o trabalho se faz num reino onde dar é receber, perder a vida é ganhá-la, ajudar é construir para a comunidade.

Publicado em 05 de outubro de 1985
Jornal O POVO                                                     Itamar Espíndola

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